Luísa de Marillac morou toda sua vida em Paris. De uma antiga família de Auvérnia, só enobreceu em 1569 com a pessoa de seu avô Guilherme II de Marillac (1518-1573), ela nasce em 12 de agosto de 1591 em condições misteriosas. Num registro feito pelo tabelião três dias depois, Luís 1º de Marillac (1556-1604), cavaleiro, senhor de Ferrières-em-Brie e de Villiers-Adam, comandante de uma companhia de ordenança do rei, dá-lhe uma pensão e nomeia-a sua “filha natural”. Porém, é possível que ele faça apenas endossar este nascimento, para evitar um escândalo a um de seus irmãos. É sempre ele que, quando Luís de Marillac casa-se, em 15 de janeiro de 1595, provavelmente logo coloca a pequena Luísa numa pensão no mosteiro real de Saint-Louis de Poissy. Lá, as dominicanas ensinam à jovem Luísa a conhecer Deus, ler e escrever, pintar, lhe dão uma sólida formação humana, sob a guarda de uma de suas tias, mère Luísa de Marillac, a primeira com este nome (1556-1629). É bem provável que nesta época Luísa conheça a espiritualidade de Santa Catarina de Siena, que citará depois em seus escritos espirituais.

Mas, logo, sem dúvida depois da morte de Luís de Marillac (25 de julho de 1604), Luísa é colocada num lar para meninas, em Paris, por Miguel de Marillac (1560-1632), o futuro chanceler da França, que se torna seu tutor. Lá, Luísa aprende como cuidar de uma casa e beneficia do clima da reforma católica que chamusca a Paris religiosa. Ela frequenta, pois, as capuchinhas do subúrbio Saint-Honoré, as “filhas da Cruz”, e, pensando tornar-se uma delas, fez voto de servir a Deus e seu próximo.

Antigo membro da liga que se tornou mestre dos pedidos, Miguel de Marillac toma então uma parte ativa na fundação do Carmelo reformado na França e freqüenta assiduamente o círculo Acarie. É lá que ele conhece os padres Pierre de Bérulle (1575-1629) e Charles Bochard de Champigny (1568-1624), dito “Honrado de Paris”. Este é provincial dos capuchinhos em 1612, quando, levando em conta a fraca aparência, de Luísa de Marillac a aconselha para não ser capuchinha, assegurando-lhe que Deus tinha um “outro desígnio” sobre ela.

Luísa é logo acompanhada em seu caminho espiritual por Jean-Pierre Camus (1584-1652), bispo de Belley, grande amigo de São Francisco de Sales, e sobrinho por aliança de Luís de Marillac. Apesar de suas ausências prolongadas, Luísa apegar-se-á muito a este homem de Deus de múltiplas facetas, que terminará sua vida entre os “Incuráveis”. Entre os numerosos romances piedosos que monsenhor Camus publica, vários têm por meta “fazer ver o ciúme de Deus pelos justos castigos que Ele faz sentir àqueles que por força ou provação tentam tirar-lhe suas esposas de seus braços”.

Os anos do matrimônio (1613-1625)

Ora, Miguel de Marillac e seu cunhado Octavien II Doni de Attichy (morto em 1614), de origem florentina, vendo em Luísa uma nova oportunidade de se aproximar do poder, decidem casá-la com um secretário dos comandantes da rainha-mãe, Maria de Médicis. Foi assim que, no dia 5 de fevereiro de 1613, Luísa de Marillac se casa na Igreja de Saint-Gervais com Antônio Le Gras (nascido em 1575 ou 1580), natural de uma velha família de Montferrand que acederá depois à nobreza. Como este pretende se unir aos nobres Le Gras dos quais ele traz o nome e as armas antes que os de seus antepassados, sua esposa será chamada “mademoiselle”, título então reservado às esposas e às filhas de escudeiros, isto é, de nobres sem títulos. Em outubro, a jovem mulher dá à luz prematuramente ao pequeno Miguel. Mas, a felicidade familiar dos Le Gras é de curta duração; desde 1622, Antônio cai gravemente doente. Acreditando que por esta doença Deus a castigava por não ter se doado a Ele como o havia prometido quando mais jovem, Luísa passa, então, por um longo período de depressão e de noite espiritual.

Porém, no dia de Pentecostes de 1623, enquanto Luísa reza na Igreja Saint-Nicolas des Champs, seu espírito é iluminado e suas dúvidas desaparecem num instante. No pergaminho onde ela relata esta “Luz de Pentecostes” e que ela trará sobre si o resto de seus dias, sabemos que naquele dia ela tem a certeza de que seu lugar era à cabeceira de seu marido e que um tempo viria onde ela faria votos, viveria em comunidade, e encontraria um novo acompanhador. Exatamente, no final de 1624 ou início de 1625, ela encontra-se com Padre Vicente de Paulo (15811660) que logo estabelece Confrarias da Caridade no final da pregação de suas missões nas numerosas paróquias dos Gondi e que, com a ajuda destes, vai logo estabelecer a Congregação da Missão, denominada de lazaristas. Atacado pela tuberculose, Antônio Le Gras se apaga no dia 21 de dezembro de 1625, deixando a jovem Luísa e Miguel numa certa precariedade econômica. Não obstante, Luísa coloca Miguel numa pensão em Saint-Nicolas du Chardonnet.

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA