Pároco de Telskuf: “Três meses depois da visita do Papa, sementes ainda por cultivar”

0
87

Jovens iraquianos aguardam chegada do Papa em Qaraqosh 

 

Noventa dias após a histórica visita de Francisco, o relato de sacerdote iraquiano revela como os gestos de amor e fraternidade do Pontífice vão, com lentidão e dificuldade, gerando numerosos frutos: “Apesar de tudo, a Igreja segue no caminho indicado por nosso amado Santo Padre”.

Federico Piana- Cidade do Vaticano                    

Passaram-se três meses desde a Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Iraque. Foi a primeira vez que o país da Ásia Ocidental, atormentado pela insegurança social e política, acolheu um Pontífice. Quatro dias, de 5 a 8 de março, em que se alternaram momentos que ficarão para sempre gravados na história, como a visita ao Grão Aiatolá Sayyid Ali Al-Husayni Al-Sistani, o Encontro Inter-religioso na Planície de Ur dos Caldeus e a oração comovente em sufrágio pelas vítimas da guerra, em Hosh al-Bieaa, Mosul. Mas também jamais será esquecido o abraço do Papa à comunidade de Qaraqosh na Catedral da Imaculada Conceição, que foi profanada e queimada pelas milícias do IS em 2014.

Uma mensagem a ser metabolizada

Gestos, discursos, exortações que foram vistos, ouvidos e apreciados por todo o povo iraquiano, sem distinção de pertença social ou crença religiosa.

Um termômetro para entender como estão germinando as sementes da paz e da fraternidade plantadas pelo Papa é o relato do padre Karam Shamasha, pároco caldeu de São Jorge em Telskuf, cuja paróquia foi destruída há sete anos, o primeiro lugar cristão a ser profanado na Planície de Nínive pelos jihadistas.

“No Iraque – diz ele – não é fácil aplicar a mensagem que o Papa Francisco nos deixou. A Igreja está procurando, por todos os meios, prosseguir o caminho com as indicações do Santo Padre: amor pelo outro, acolhimento, valorização das diferenças que são um tesouro para todos. No entanto, para ver resultados plenos, serão necessários tempo e muitos esforços.

Construir pontes de comunhão

O diálogo continua a ser o instrumento necessário e incontornável para tentar concretizar os desejos do Papa expressos nesta viagem histórica. Disso está convencido o sacerdote, a ponto de afirmar que “é necessário continuar no debate político-religioso, sobretudo contando com a fraternidade e a dignidade humana. O mais importante é conseguir compartilhar nossa terra tão rica de diversidade. Precisamos construir pontes de comunhão, tendo claro de que a tarefa será árdua”.

Focar no senso de cidadania

Uma solução para fazer chegar a um acordo as tantas almas que dão vida a um Iraque complexo e articulado, poderia ser encontrada na disseminação da ideia de que todo iraquiano deveria se sentir unido pelo simples fato de ser um cidadão iraquiano ao invés de estar dividido em uma miríade de grupos religiosos.

Padre Karam Shamasha alerta: “Se confiarmos apenas na identidade religiosa, corremos o risco de ter mais confusão. Esse, penso eu, é o caminho certo a ser seguido”.

Frutos na Planície de Nínive

O sacerdote iraquiano conclui com uma pergunta: “Qual foi o fruto mais importante que a visita do Papa trouxe à minha Planície de Nínive?”.

E responde, dizendo que a visita “tornou o cristianismo conhecido. Infelizmente, nas escolas e na cultura iraquiana não existe uma ideia correta do cristianismo. O Santo Padre, ao invés disso, com seus gestos de amor, comunicou a todos que a nossa é verdadeiramente uma religião de paz”.