Guerra em Cabo Delgado e jovens sem futuro, entre as preocupações da IMBISA

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O Comité Permanente da Associação Inter-regional dos Bispos da África Austral (IMBISA) realizou recentemente em Joanesburgo uma reunião de preparação à próxima Plenária da Associação, a ter lugar em 2022, na qual os prelados debateram sobre a situação socio-política e económica nos diferentes Países da Região.

Cidade do Vaticano

Dom Inácio Saúre, Arcebispo de Nampula e membro do Comité Permanente, numa longa entrevista à Rádio Veritas, falou dos efeitos da pandemia do novo Coronavirus e as suas consequências no contexto da economia de Moçambique (em particular com o acentuar-se da pobreza e o desemprego), e sobretudo do problema da guerra em Cabo Delgado que, como é sabido, “já causou mais de 2500 mortos e mais de 700 mil deslocados”. Mas convém notar, acrescentou o prelado, que os 2500 mortos são apenas o número oficial, porque muitas pessoas morrem no mato e são também muitos os desaparecidos.

Dom Inácio Saúre falou também da “problemática da juventude que nos preocupa muito”, juventude que no contexto de Moçambique se vê a braços com muitas dificuldades, entre as quais a falta de emprego, “eventualmente uma das razões que levam com muita facilidade à aceitação de recrutamento para as fileiras do crime e da guerra”, destacou o prelado.

Igreja encoraja a acolher os deslocados com respeito e carinho

Nesta situação, prosseguiu Dom Saúre, a Igreja dentro das suas limitações e na sua pobreza, tem encorajado as Comunidades cristãs e a todas as pessoas de boa vontade a acolher de bom grado os deslocados. De facto, no contexto do conflito de Cabo Delgado, há muita desconfiança que entre os deslocados haja infiltrados que fazem a guerra, observou, mas “sem excluir a atenção e a vigilância, também temos de procurar acolhê-los com muito respeito e com muito carinho”.

A Igreja também tem procurado dar apoio material: alimentação, utensílios domésticos e também na construção de casas de habitação um pouco mais dignas, pois em muitos lugares de reassentamento os deslocados estão em tendas precárias, onde as condições de vida são extremamente difíceis.

Bispos: “guerra se pode alastrar a outras províncias”

Dom Inácio referiu-se igualmente ao recente encontro do Episcopado de Moçambique em que, por um lado, os Bispos deploraram fortemente a questão da guerra em Cabo Delgado, “guerra que, com os deslocados, já se alastra para outras Províncias e Dioceses, onde também não se exclui a possibilidade que chegue verdadeiramente também a guerra”.

Preocupante situação dos jovens sem futuro

Os Bispos reiteraram por outro lado a sua preocupação quanto à atenção que merece a juventude, porque em Moçambique a juventude enfrenta enormes dificuldades: falta de emprego, falta de condições para poder estudar, entre outras. “Em Moçambique” – observou o Arcebispo de Nampula – “comparativamente ao tempo colonial, agora temos muitas Universidades, mas muitos jovens não têm acesso, porque não têm dinheiro para poderem estudar, e isto deixa muito obscuro o futuro dos jovens, jovens que não se podem preparar para o futuro, jovens que não têm trabalho …”.

Terrorismo não mostra sinais de chegar ao fim

No norte de Moçambique o terrorismo não mostra nenhum sinal de chegar ao fim, antes pelo contrário, um problema que Dom Saúre considera muito grave e que, por conseguinte, preocupa muito os Bispos. O prelado referiu a sua experiência missionária de dez anos na República Democrática do Congo (RDC) onde, disse, este tipo de problemas existe há vários anos, e infelizmente continua até hoje, e não há sinais que isso termine agora. È, pois, preocupante ver no nosso País, particularmente na Província de Cabo Delgado, surgir um problema semelhante, o que leva a acreditar que estes grupos estão em conexão também com os grupos terroristas que já actuam noutros País de África.

Juntos unidos para enfrentar seriamente o problema

Daí, o apelo do prelado a toda a Região da IMBISA a “estudar seriamente o problema e trabalhar juntos e bem unidos, para juntos podermos enfrentar o problema com seriedade”. Muito apreciado, neste sentido, o gesto da delegação da Conferência Episcopal da África do Sul que, no ano passado, visitou Pemba para solidariedade e encorajamento à Igreja e povo de Cabo Delgado.

Agentes de pastoral não estão seguros, como o povo

A terminar, e falando da segurança dos agentes de pastoral (particularmente sacerdotes, religiosos e religiosas), neste contexto de terrorismo, Dom Inácio sublinhou que eles não estão seguros, “não porque são Padres ou Irmãs, mas porque são pessoas que estão verdadeiramente com o povo”. “Da mesma maneira que o povo não está seguro, também o pessoal eclesiástico (sacerdotes, religiosos e religiosas), não escapam ao perigo do terrorismo, como todo o povo também se encontra em perigo” – concluiu o prelado.

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