A universidade é o lugar em que se introduz o aluno ao conhecimento e à dimensão da investigação científica. Uma das principais responsabilidades dos professores é aproximar as jovens gerações do conhecimento, ajudando-as a compreenderem as conquistas do conhecimento e as suas aplicações. O esforço do conhecimento e da pesquisa não deve ser separado do sentido ético e do transcendente. Nenhuma ciência verdadeira pode negligenciar as suas consequências éticas e não existe verdadeira ciência que afaste da transcendência.

Ciência e ética, ciência e transcendência não se excluem reciprocamente, mas se conjugam para uma maior e melhor compreensão do homem e da realidade do mundo. Agir “como se Deus existisse”, crer realmente nele, na vida eterna e no futuro absoluto da pessoa humana, não significam que se deva refletir sobre teorias irrelevantes ou tratar de princípios que, em última análise, não se pode conhecer. Ao contrário, é exatamente a busca e a compreensão dos verdadeiros valores que devem orientar a ação humana no mundo, especialmente a justiça e a verdade, declarando que o ser humano nunca é um meio, mas sempre um fim em si mesmo.

Isso significa ampliar os limites epistemológicos do nosso conhecimento para dilatar nossa capacidade de acessar a verdade. Apesar das distintas metodologias, o cientista e o crente têm, em comum, a busca do ser humano que se empenha contra o óbvio, que rejeita o banal, que ultrapassa as aparências e tende a ir ao encontro da essência das coisas e do ser. Mas cada âmbito mantém sua autonomia. Se a razão se deixar guiar demais pela fé, ou mesmo pela ausência total dela, cai num dogmatismo que fragiliza o pensamento, restringindo-o.

Se a ciência for segura demais de si, pode tornar-se violenta e totalitária. Se a fé quiser basear-se totalmente na razão para se explicar, acaba se tornando a medida de si mesma. Se rejeitar completamente a razão, reduz-se a uma confiança incompreensível e a uma ética sem sentido. Se a fé não se deixar questionar, há o risco de tornar sua crença mera segurança cômoda. Aqui será preciso recorrer a Santo Agostinho, para quem uma fé que não seja pensada é nada.

Na relação entre o crer e o compreender, o cristianismo construiu um caminho. Hoje, quando a razão, a ciência e a técnica são capazes de avanços (inimagináveis poucos anos atrás), corre-se o risco de criar um desencontro entre fé e razão, ciência e transcendência. Não é preciso haver síntese, talvez nem seja possível, mas é preciso considerar o que São João Paulo II escreveu na Fides et Ratio: “A fé e a razão são como que suas asas que enlevam o pensamento humano na busca da verdade.” Assim, embora sem a síntese, nada impede que, entre ambas, exista maior solidariedade.

Para estreitar essa relação, será preciso uma postura de humildade, abertura e diálogo. Para a fé, exige-se que seja mais mística e orante, discípula que escuta seu Senhor que fala e revela sinais ao longo dos tempos. Será preciso encontrar Deus em cada tempo, em cada cultura e em cada nova etapa da história humana. Ou seja, com base na fidelidade às fontes, ser capaz de encontrar, testemunhar e anunciar o mistério que cria, visita e santifica este mundo. A abertura e o diálogo com a cultura moderna não podem fazer o crente retrair-se num modelo cultural que não existe mais, alegando que é preciso recuperar uma antiga forma que garanta a serenidade de tempos passados.

Por outro lado, a razão e a ciência, pela via da investigação, da inquietude e do questionamento, haverão de buscar a abertura necessária para ouvir, refletir e dialogar com outras formas de conhecer a verdade que não seja apenas o critério científico. Na interação recíproca entre crente e cientista, encontra-se o ser humano com suas perguntas sobre o sentido da vida e a subjetividade que não pode, suficientemente, ser medida ou analisada por meio de critérios objetivos. Nessa interação entre ciência e transcendência, a grande inimiga da fé não é a razão, mas a ignorância. Igualmente, a grande inimiga da ciência não é a fé, mas a presunção.

As duas fontes de conhecimento, ciência e transcendência não são idênticas e nem concorrentes. Uma é resultado do exercício de nossa inteligência, e a outra é empenho para acolher a luz de Deus que se revela e tudo ilumina. O diálogo entre fé e razão, ciência e religião, se realiza somente quando os interlocutores compreendem que a verdade transcende ambos e, ao mesmo tempo, essa verdade está contida em ambas as instâncias.

Por Dom Leomar Antônio Brustolin – Bispo auxiliar de Porto Alegre (RS)

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